​GIANNI PATUZZI  

1975-82: Vogliamo tutto! A força do gesto

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Em meados dos anos 70 os membros do NP2 voltaram a trilhar itinerários individuais e Gianni Patuzzi retomou o gesto como instrumento expressivo de contestação social. Em Turin o ambiente social e intelectual estava fortemente marcado pelos conflitos estudantis, pelos protestos operários e pela ação cada vez mais aguda da luta armada, culminando, em 1979 no seqüestro de Aldo Moro. A política havia se tornado empenho civil e individual explícito e perpassava as paixões e inteligências daqueles artistas que concebiam suas obras como ”presença histórica”, “testemunho de homens que enfrentam conscientemente o processo histórico”, como afirmava outro artista vêneto - também interlocutor de Scarpa, Fontana e Vedova - o compositor Luigi Nono.

 

Há um certo paralelismo entre a trajetória artístico-musical de Nono, apenas oito anos mais velho de Patuzzi, que incluía em suas composições a gravação ao vivo de protestos em praça pública, por ele definidos como “eventos sonoros no espaço”, e a experiência dos Collettivi de Gianni Patuzzi: a intervenção livre de pessoas – transeuntes anônimos, operários, estudantes - em um espaço preparado no qual, ao final do processo criativo, o artista intervinha de forma corretiva e conclusiva mantendo, porém, o substrato pictórico da massa anônima, sua presença viva e plural, testemunho de humanidade na obra.

 

A exposição da Galeria Teorema em 1975 (Turin) sintetizava esse investimento na pintura gestual, no happening como acontecimento estético capaz de provocar o fruidor da obra de arte, deslocando-o de seu papel convencional de espectador e tornando-o co-partecipador de uma obra coletiva. Os Collettivi, cedidos pela galeria Studio A de Milão, eram incorporados a esta exposição que, para o crítico Lucio Cabutti, tinha o mérito “ (...) de pôr em discussão o próprio espaço expositivo, mas sobretudo de provocar uma inclusão direta do espectador na operação artística (...) como no caso do convite a outras pessoas de intervir com pincéis e cores sobre uma grande tela branca (...) cobrindo-a com escritas e signos que Patuzzi completa logo depois, mantendo alguns detalhes, recobrindo outros ou propondo a continuação do gesto por parte dos espectadores transformados em co-autores.”

 

A obra gestual de Patuzzi emana, acima de tudo, liberdade, potência e tensão. Atributos  expressos na tela pela potência do gesto, obtida pela instantaneidade do ato pictórico impresso em sua completude, com os respingos e até mesmo as incorreções, mantidas  como testemunho do processo criativo. Por vezes, sobretudo na produção mais próxima, a partir dos anos 80, o gestual pode ser “contido” como no Quadro di cuoio ou “organizado” em linhas direcionais que sugerem um dinamismo mecânico, como nas telas mais recentes Movimento Meccanico e Movimento Pendolare, ou como na obra Anti orario que, mesmo sendo uma escultura, é gestual pois prevê a ação do espectador que modifica a direção da linha em tensão (haste de ferro reta – móvel) em relação ao elemento constante (haste de ferro “quebrada” – fixa).

 

A experiência dos Colletivi havia se esgotado no final da década de 70, mas dela germinou o desafio da interatividade, de envolver em uma experiência artística qualquer transeunte.  Já não se tratava de  garantir a reprodutibilidade da obra de arte como nos Multipli e sim de idealizar elementos componíveis que pudessem manter o conceito primário artístico independente da maneira como fossem montados e/ou manipulados.

Este é o princípio norteador do conjunto de esculturas que Patuzzi conceitua como Opera Aperta, entre elas a pioneira Albero che cresce, na qual os elementos cuneiformes de madeira colorida podem ser encaixados livremente, a partir de uma base em concreto com específico suporte. Mais recentemente, já no Brasil onde atua desde 1982, retomou esse conceito com a escultura Elementi Cellulari, composta por células de vários materiais - aço, alumínio, acrílico - que se multiplicam sem limites pré-determinados no espaço, a partir de um sistema de junção que permite sua livre rotação por parte do público. Em ambos os casos se trata de elementos pré-fabricados e montáveis encaixados ou manipulados de modo a garantir ao público uma co-participação, resultando em uma infinita possibilidade de variantes que sempre expressarão o conceito originário. Trata-se de viver a experiência artística assim como vivemos e conhecemos o mundo, no qual o próprio conceito de árvore, abstrato por definição, é apreendido in natura apenas pelas múltiplas formas e dimensões existentes, mesmo sempre sendo árvore