GIANNI PATUZZI

Premissa


Escrever a respeito da própria experiência é como fazer um quadro, tem um efeito estiumulante e otimista: quando a obra está pronta parece que tudo progrediu de modo metódico e racional. Mas, para traçar uma autobiografia intelectual deve-se ter atentar para o caráter muitas vezes casual das experiências estéticas,
profissionais e também dos contatos e das amizades que marcaram o  percurso de vida e muitas de suas escolhas.

 

Reconstituir o próprio passado é sempre um ato de imaginação e, neste caso, uma retomada consciente daqueles momentos e contatos que, retrospectivamente, posso afirmar terem influenciado e contribuído para definir a minha identidade artística. Neste ponto de minha carreira posso confessar  ter bastante clareza a respeito do grau de casualidade que pesou em minha atividade artística e profissional, do caráter formativo de ter frequentado, em minha juventude, o ambiente intelectual e de trabalho de uma certa geração de artistas vênetos, como  Carlo Scarpa, Alberto Viani e Lucio Fontana.

 

É verdade, também, que quando começo a pensar em uma obra, o aparente vaguear  da mente atrás de suas próprias curiosidades, enfileirando raciocínios e, no meu caso, compondo uma imagem poética de uma forma, acaba revelando um sentido para o qual não atentei no começo. A obra adquire um sentido pleno sempre ao cabo de seu processo produtivo, quando o conceito inicial se traduz em formas plásticas concretas.

 

Em um certo sentido, também uma biografia é traçada assim e, por isso, somente agora, após ter vivido várias experiências em dois mundos diversos, o Brasil e a Itália, posso realmente agir como quando produzo um quadro: fechar os olhos e começar a pensar livremente, retornando sempre sobre alguns pontos focais os quais, aos poucos, se desenvolvem e, na prancheta, se transformam em um esboço e depois em um projeto e finalmente em uma obra que, no fim, posso afirmar ter sido  o resultado lógico de todo um encadeamento de idéias e gestos.

 

Passadas mais de seis décadas desde o início de meu ofício, escrever uma premissa significa identificar esta lógica, dotar de sentido a minha experiência artística que alguns críticos definiram como "uma investigação da poesia da matéria em um contexto de composição de extremo rigor, com a inserção de valores expressivos, espaciais e humanos" (Dany Casarsa). Fui considerado um artista inconformista porque nunca respeitei as fronteiras convencionais entre pintura, escultura e design, tendo concebido o meu trabalho como uma reflexão simultaneamente estética, formal e técnica e tendo investido em experiências de autoria coletiva desde a década de 1960, a tal ponto que Armando Capri destacou a minha capacidade de "viver até o fim a crença informal, a investigação do espaço e a pluralidade da ação artística"e Lucio Cabutti definiu a minha pintura gestual como o fruto de "um impulso de pôr em discussão o sentido do espaço expositivo, provocando a inclusão direta do expectador na operação artística com uma partecipação não teórica, mas fazendo manipular as pinturas e as esculturas como se fossem objetos táteis".